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quarta-feira, 2 de junho de 2010

"Quem não tem quer; quem tem quer mais; quem tem mais diz que nunca é suficiente"

Leonardo Boff
De 27 de janeiro a 1º de fevereiro de 2009, na cidade de Belém, Pará, realizou-se a Nona Edição do Fórum Social Mundial.
Num dos encontros, cujo tema era Diálogo com Movimentos de Juventude pelo Meio Ambiente, Leonardo Boff se reuniu especificamente com os jovens.
Leonardo Boff iniciou a sua exposição falando sobre a crise financeira que assola o mundo. US$ 15 trilhões de dólares evaporados em questão de poucos dias, levando consigo imensas corporações, grandes bancos e tradicionais fábricas. E deixando para trás, em meio às frias estatísticas, as demissões em massa, o desemprego, a fome, o desespero, as lágrimas. Uma crise que não assolou a periferia, mas o coração do império. E Leonardo Boff lembrou que as artimanhas sutis do capital procurarão se refazer. Dirão - os economistas, as corporações transnacionais e os detentores do poder - que o capitalismo vive de crises, e que esta é mais uma crise cíclica. E tentarão nos empurrar mais do mesmo, mais consumo, mais conflitos, mais individualismo. Porém, a crise atual é terminal. O desafio não e remediar o que não tem conserto, mas buscar novas alternativas. O sistema atual, regido pelo capital e pelas leis do mercado, que, em sua natureza, é voraz, acumulador, depredador do meio ambiente, criador de desigualdades e sem sentido de solidariedade, atesta a sua própria falência.
Um sistema onde a cada quatro minutos uma pessoa perde a visão em decorrência da carência de vitamina A, declara o seu próprio fracasso. Um sistema onde a cada cinco segundos uma criança com menos de cinco anos morre de fome ou desnutrição atesta sua própria falência. Um sistema que criou desumanos sofrimentos e gritantes desigualdades. O sistema vigente, que tem como pilar um individualismo avassalador, demonstrou-se incapaz de assegurar o bem-estar da humanidade.
Um individualismo que se revela na linguagem cotidiana: O meu emprego, o meu salário, a minha casa, o meu carro, a minha família. Um sistema onde ninguém é levado a construir algo em comum, onde a competição, o acúmulo e a ostentação predominam em detrimento da solidariedade, da caridade e da compaixão. Um sistema onde as crianças aprendem tão cedo a conjugar o verbo COMPRAR, mas que desconhecem o que seja COMPARTILHAR.
Um sistema que incentiva o consumismo inconsequente e desenfreado, e que tanto cultua os bens materiais. Uma cultura que dissemina compulsão e consumismo, que associa o produto a um conceito de felicidade. Um sistema que desconhece o amor, a caridade e a compaixão, e que se fez cego e surdo para o apelo do excluído, do necessitado.
O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença. Um sistema que por longas décadas alega não possuir recursos para promover a educação, a saúde e para aplacar a fome mundial, mas que tanto faz com guerras, conflitos e com a indústria bélica, e que se mostra capaz de mobilizar em poucas horas três trilhões de dólares para socorrer bancos, montadores e corretoras, atesta seu próprio fracasso terminal.
Como foi que permitimos chegar a esse ponto? Quanto tempo ainda haverá de passar até que resgatemos a nossa humanidade perdida? Um punhado de farinha e água para enganar a fome, acrescido, nos dias de sorte, de um pouco de sal.
Além da crise financeira, no deparamos também com a crise ambiental. A falta de solidariedade que impera em nossas relações sociais. E a falta de solidariedade com a Natureza. A ânsia pelo crescimento econômico, aliada ao consumismo compulsivo, resultou na dilapidação sem precedentes da Natureza. O atual modelo econômico fracassou contra a própria humanidade e contra o planeta. O bem-estar de todos e a preservação da Terra são sacrificados ao lucro de poucos. O consumo inconsequente aumentou o desperdício, a produção de lixo e os impactos ambientais. E poluímos mares e rios.
O desenvolvimento técnico-científico, dissociado da consciência ecológica, fez com que saqueássemos os recursos naturais numa escala sem precedentes. A ruptura entre o trabalho e o cuidado fez com que o afã desmedido de produção se revertesse na ânsia incontida de dominação das forças da natureza. Os limites do capitalismo são os limites, tanto da Terra quanto do capitalismo. Já não mais podemos prosseguir com a perversa lógica do capital, baseada no acúmulo e no desperdício: "Quem não tem quer; quem tem quer mais; quem tem mais diz que nunca é suficiente". A lógica do capital que tanto incentiva o supérfluo, a ostentação e o desperdício. Os atuais padrões de extração, produção e consumo, mostraram-se insustentáveis, além da capacidade de reposição e regeneração do planeta. A Terra está dando sinais inequívocos de que já não aguenta mais. Sinais como a escassez de água potável, e o aquecimento global. Sinais como as mudanças climáticas, que já começaram a afligir crescentes parcelas da população ao redor do planeta. A terra é um planeta pequeno, velho e limitado que não suporta um projeto de exploração ilimitada.
As crises financeira, climática, energética e outras, - todas elas nos remetem à crise do paradigma dominante. Precisamos de um novo paradigma de civilização porque o atual chegou ao seu fim e exauriu suas possibilidades.
Projeções feitas por pesquisadores e cientistas ambientais mostram que, se o consumo continuar no ritmo atual, em 2050 precisaremos de dois planetas Terra.
Qual o mundo que iremos deixar para as próximas gerações? Cultivar a solidariedade intergeracional, para com os que virão depois de nós. Eles também precisam satisfazer suas necessidades e habitar um planeta minimamente saudável. Buscar novos valores. Alimentar novas esperanças. Novos rumos e novos paradigmas. A interculturalidade, - o diálogo entre o chamado saber ocidental e o saber tradicional, milenar, a cosmovisão indígena. As tradições dos povos nativos falam do ser humano como jardineiro. Conforme ensinam tais tradições, o ser humano deve cultivar a Terra com cuidado e senso de justiça e estética. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é nosso dever sagrado. Devemos lançar um novo olhar sobre a realidade, adotar um novo paradigma de relacionamento com todos os seres.
O universo caminhou 15 milhões de anos para produzir o planeta que habitamos, essa admirável obra que nós, seres humanos, recebemos como herança, para cuidar como jardineiros, e preservar como guardiões fiéis. Somos todos interdependentes uns dos outros, coexistimos no mesmo cosmos e na mesma natureza.
Uma mesma fonte alimentadora, misteriosa e inominável, sustenta e confere vida a tudo que existe. O mesmo Sopro permeia toda a existência. A vida é milagre tão belo quanto curto, que deve ser cultivado como as flores mais belas. Como nunca antes na história o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Promover a ecologia do cuidado, que zela pelos interesses de toda a comunidade de vida. Coexistir com respeito, cooperação e harmonia com os demais moradores deste planeta, - animais, vegetais, seres humanos. A interculturalidade, o encontro com outras tradições, outras culturas, enriquece a nossa visão do mundo e da vida. Ter olhos para os que são diferentes. Ter ouvidos para a voz, as suas melodias, canções, histórias.
Habitamos todos uma Casa comum. Temos uma origem comum, certamente, um destino comum. As tantas flores, com suas cores e formas distintas. Diferenças superficiais, pois a terra que as nutre é uma. Um único Sopro as anima, conferindo-lhes significado, sentido e vida. O desafio do tempo presente é o de resgatar as utopias esquecidas, reescrever o nosso sonho comum. Um único Sopro, uma única alma, uma mesma esperança. E em meio à agitada rotina da vida moderna, encontrar tempo para refletir sobre perguntas metafísicas. Ter ouvidos para a voz que fala em nós, que nos convoca a prática do bem e que diante de uma noite estrelada nos pergunta: "Quem sustenta e se esconde atrás daquelas estrelas?" A voz que, quando diante de um recém nascido, com respeito e admiração pergunta: "Quem foi que produziu essa vida?..." " Onde é que, no olhar da criança, começa o céu e acaba a terra?"

Um comentário:

João Bosco disse...

Que coincidência, ontem estava ouvindo este texto. Gostei muito e fiz download de varios outros arquivos em mp3 do Leonardo Boff.
Uma pergunta que não me sai da cabeça: "Que mundo vamos deixar para as próximas gerações?"
Você presta um grande serviço publicando artigos como este.